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Dom Casmurro - O Ciume Como Pretexto
Escrito por Vinícius Araújo de Oliveira    Sex, 13 de Novembro de 2009 23:37    PDF Imprimir E-mail
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Artigos - Literatura
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A obra Dom Casmurro, publicada em 1899 tem gerado sucessivas análises e interpretações, e até polêmicas, que circundam a temática do adultério que a personagem Capitu teria cometido, ou não. Renomados críticos literários, através de distintas óticas, buscaram na obra indícios para confirmar ou refutar as acusações de Bentinho e por muito tempo esta dúvida cercou a obra de Machado de Assis como a principal, quando não única, temática abordada no livro, como observado por Silviano Santiago¹. 

Já em 1960 em The Brazilian Othello, Helen Caldwell produz uma crítica diferente da encontrada até então, na qual coloca Bentinho como um manipulador do leitor, citando como exemplo o uso do personagem Otelo e de sua vingança contra Desdemona, em uma compreensão distorcida e parcial. Posteriormente, John Gledson retoma os estudos de Helen para apontar que as acusações de Dom Casmurro seriam motivadas por algo mais complexo do que o ciúme, indicando as questões sociais do século 19 no Brasil. John entende que na verdade estas acusações feitas contra Capitu seriam uma manifestação de revolta de um patriarca ofendido pela liberdade de opinião de uma menina que teria suas origens inferiores às dele. 
Capitu era como uma espécie de agregada da família de Bento Santiago ( Bentinho), sua família sendo muito mais pobre, dependia dos favores do pai de Bentinho e posteriormente da mãe dele. Desde criança Capitu sempre se mostrará inteligente e sagaz, amadurecida e dotada de opinião e atitude. Foi por esta Capitu que Bentinho se apaixonou, admirando-a e percebendo-lhe as ações, porém, como ambos eram crianças isto em nada de grave implicava. 

Bentinho formou-se em direito e assumiu parte dos bens da família, tornando-se um sujeito da sociedade patriarcal constituída no Brasil. Casou-se com Capitu e tudo correu bem até o momento em que a percebeu não tão submissa e dependente como desejava. Esta postura de Capitu pode ser observada, como exemplo, no capítulo em que Bentinho descobre uma economia feita por ela com a administração de seu amigo Escobar². 

A narrativa de Dom Casmurro acontece aproximadamente em 1850. Período em que o pensamento liberalista invade o Brasil e defronta-se com a escravidão colocando em crise a sociedade patriarcal e aristocrática. Neste momento da história brasileira, além do senhor branco, dono de terras e de escravos e dos próprios escravos uma terceira classe digladiava para sobreviver: os homens livres e sem posses. Assim sendo, como sobreviver sem ser escravo e ao mesmo tempo sem ser rico? Logo, este terceiro grupo social se alocou como prestadores de serviços e bajuladores dos tais homens ricos, vivendo de seus favores. Instala-se a sociedade do favor no país. Esta realidade é apreendida e representada por Machado de Assis em personagens como o agregado José Dias, homem que presta toda a forma de serviço que lhe é solicitada pelos Santiagos, além da bajulação a qual se submete, para assim sobreviver as custas da família. 

Conforme observado anteriormente, a família da própria Capitu possuía uma espécie de vinculo de agregados à família de Bentinho, por serem pobres e dependerem muitas vezes da ajuda da mãe de Bentinho. Então, ainda que casados, Bentinho guardara em sua mente que aquela menina ainda devia alguma espécie de favor à ele e sua família e estes favores deveriam ser pagos com a submissão e dependência de sua esposa. 

Por isso, a partir do momento em que Capitu mostrou-se nem tão submissa e nem tão dependente como esperava Bentinho, seu ego e sua posição de sujeito patriarcal foram feridos e isso exigiu uma atitude de manutenção do poder e vingança da parte dele. 
Como vemos na obra, desde de criança Bentinho sempre fora ciumento e tivera inúmeras crises referentes à Capitulina. O que pior para uma mulher, naquela época, do que ser apontada como adultera? Assim, o narrador nos apresenta uma série de episódios que indiciam a dissimulação de sua esposa e a possibilidade de sua traição com Escobar, objetivando firmar no leitor a certeza de que Capitu o traiu. Tanto o é que, na ultima página este narrador lança a seguinte pergunta: “ O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.” Uma pergunta como esta não abre a possibilidade do leitor pensar se ela cometeu adultério ou não, isso já esta decidido pelo narrador, que recusou-se a aceitar a tentativa de sua esposa em tornar-se um sujeito social e encontrou como solução exilá-la e difamá-la como adúltera. 



 
Autor: Vinícius Araújo de Oliveira

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