| Dom Casmurro - O Ciume Como Pretexto | ||||
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| Artigos - Literatura |
![]() A obra Dom Casmurro, publicada em 1899 tem gerado sucessivas análises e interpretações, e até polêmicas, que circundam a temática do adultério que a personagem Capitu teria cometido, ou não. Renomados críticos literários, através de distintas óticas, buscaram na obra indícios para confirmar ou refutar as acusações de Bentinho e por muito tempo esta dúvida cercou a obra de Machado de Assis como a principal, quando não única, temática abordada no livro, como observado por Silviano Santiago¹. Já em 1960 em The Brazilian Othello, Helen Caldwell produz uma crítica diferente da encontrada até então, na qual coloca Bentinho como um manipulador do leitor, citando como exemplo o uso do personagem Otelo e de sua vingança contra Desdemona, em uma compreensão distorcida e parcial. Posteriormente, John Gledson retoma os estudos de Helen para apontar que as acusações de Dom Casmurro seriam motivadas por algo mais complexo do que o ciúme, indicando as questões sociais do século 19 no Brasil. John entende que na verdade estas acusações feitas contra Capitu seriam uma manifestação de revolta de um patriarca ofendido pela liberdade de opinião de uma menina que teria suas origens inferiores às dele. Bentinho formou-se em direito e assumiu parte dos bens da família, tornando-se um sujeito da sociedade patriarcal constituída no Brasil. Casou-se com Capitu e tudo correu bem até o momento em que a percebeu não tão submissa e dependente como desejava. Esta postura de Capitu pode ser observada, como exemplo, no capítulo em que Bentinho descobre uma economia feita por ela com a administração de seu amigo Escobar². A narrativa de Dom Casmurro acontece aproximadamente em 1850. Período em que o pensamento liberalista invade o Brasil e defronta-se com a escravidão colocando em crise a sociedade patriarcal e aristocrática. Neste momento da história brasileira, além do senhor branco, dono de terras e de escravos e dos próprios escravos uma terceira classe digladiava para sobreviver: os homens livres e sem posses. Assim sendo, como sobreviver sem ser escravo e ao mesmo tempo sem ser rico? Logo, este terceiro grupo social se alocou como prestadores de serviços e bajuladores dos tais homens ricos, vivendo de seus favores. Instala-se a sociedade do favor no país. Esta realidade é apreendida e representada por Machado de Assis em personagens como o agregado José Dias, homem que presta toda a forma de serviço que lhe é solicitada pelos Santiagos, além da bajulação a qual se submete, para assim sobreviver as custas da família. Conforme observado anteriormente, a família da própria Capitu possuía uma espécie de vinculo de agregados à família de Bentinho, por serem pobres e dependerem muitas vezes da ajuda da mãe de Bentinho. Então, ainda que casados, Bentinho guardara em sua mente que aquela menina ainda devia alguma espécie de favor à ele e sua família e estes favores deveriam ser pagos com a submissão e dependência de sua esposa. Por isso, a partir do momento em que Capitu mostrou-se nem tão submissa e nem tão dependente como esperava Bentinho, seu ego e sua posição de sujeito patriarcal foram feridos e isso exigiu uma atitude de manutenção do poder e vingança da parte dele. Artigos mais atuais:
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